Um tiro no Escuro

Tido como o melhor da série que imortalizou Peter Sellers como o Inspetor Jacques Clouseau, Um Tiro no Escuro também é o primeiro filme que apresenta a estrutura que se repetiu várias outras vezes. É neste que aparecem as tentativas de assassinato mal sucedidas e que nos são apresentados o chefe de Clouseau, Charles Dreyfus – que desenvolve um ódio doentio pelo inspetor – e Kato, empregado e sparrow do nosso herói.

Peter Sellers no melhor filme do Inspetor Clouseau

O fato é que em A Pantera Cor de Rosa Clouseau não é o personagem principal. Peter Sellers fica à sombra de David Niven, em um filme que apresenta o personagem, mas não o mesmo estilo de comédia que suas continuações. Um Tiro no Escuro também não chega a ser uma continuação precisa do primeiro. Enquanto na Pantera o inspetor termina preso, neste nenhuma explicação é dada sobre a sua volta ao cargo.Não é estranho que a cinesérie tenha dado origem a uma série de desenho animado. Além dos personagens criados para as aberturas, o apelo do filme é junto ao público que gosta de humor visual. Quem rola de rir com Clouseau, também ri vendo os desenhos da MGM, Hanna-Barbera e os Looney Tunes. Blake Edwards dirige seus atores com o mesmo estilo que Friz Freleng - produtor dos desenhos da Pantera e lendário diretor de animações da Warner Bros. - dirigia seus personagens de animação.


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Bem vindo à Selva

Depois que Arnold Schwarzenegger que envelheceu e virou governador da Califórnia, a mídia em torno de Hollywood começou a especular sobre o substituto para o título de brutamontes oficial dos filmes de ação. Nesta disputa dois atores se destacam: Vin Diesel, que vem alternando bons filmes com sucessos de bilheteria e Dwayne ‘The Rock’ Johnson, ex-campeão de luta livre que ganhou o maior salário de estréia da história do cinema – em O Escorpião Rei.

The Rock: fazendo pose no 'Brasil'Apesar de não ter nenhum filme excepcional no currículo, o herói de Bem-vindo à selva sai na frente em pelo menos dois quesitos; primeiro, ele leva a benção de Schwarza, que faz uma ponta logo no início da película com uma frase de quem está passando o bastão: “Divirta-se”; segundo, a não ser se considere o Triplo X de Vin Diesel um filme de comédia – o que não seria completamente injusto –, The Rock é o único que exercita sua veia cômica, coisa que seu antecessor, exterminador, fez durante sua carreira.

O filme de Peter Berg é divertido, mas, para o público brasileiro, seus defeitos são potencializados. Grande parte do filme se passa no Brasil e a “selva” do título em português é a amazônica. Pode-se imaginar o resto? Os “brasileiros” cospem seus diálogos com um sotaque carregado e o resto do pano de fundo também é distorcido. Façamos justiça lembrando que a equipe que procurava locações para filmar no Brasil foi assaltada e por isso desistiu-se de investir nesse detalhe, que certamente passará desapercebido pelos americanos.

Se fecharmos os olhos nós mesmos para este “detalhe”, veremos que a criatividade nas cenas de ação – coisa que não se via desde chinfrin-mas-estiloso Romeu tem que morrer – compensa. Os exageros, na medida certa, são feitos no estilo Shaolin Soccer – divertidíssimo filme de ação-comédia chinês que nem sei se será lançado no Brasil.

Christopher Walken com seus capangasSeann William Scott continua o eterno Stifler de American Pie. Mas o herói do filme tem carisma e Christopher Walken passeia em cena, funcionando como um pedigree para as atuações.

A lembrança que fica é de The Rock em ação com a bandeira do Brasil flamejando ao fundo. Nos faz pensar em até quando o Brasil vai ter lidar só com filmes pretensiosos. Cadê o cinema de ação nacional? E por que Cidade de Deus é uma exceção no que diz respeito à qualidade técnica do cinema nacional? Cadê o nosso Robert Rodriguez?


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A Paixão de Cristo

Contar uma história que todo mundo sabe – ou acha que sabe – é uma tarefa dificil. Mel Gibson decidiu contar a sua leitura ortodoxa do novo testamento sem explicar tudo. Ele não fala com cuidado dos ensinamentos de Cristo, limitando o filme ao exemplo que ele deu nas suas últimas horas. O resultado é que, para quem faz uma leitura não religiosa do filme, faz mais sentido Edward Norton apanhando em Clube da Luta do que Jim Caviezel em A Paixão de Cristo.

Jim Caviezel: Olhos que brilhamA caracterização – mais do que a interpretação – de JC é um dos pontos fortes do filme. Ele não deixa de ser altivo, mesmo carregando a cruz. Seus olhos brilhantes são um ótimo detalhe e a possibilidade dos diálogos em língua original são uma idéia a ser levada a sério mais vezes no cinema.

Mas não é preciso ser religioso para fazer a tal “leitura religiosa”. É só não ir ao cinema esperando um filme muito realista ou historicamente preciso. Os personagens, com raras exceções, estão caricaturados e nem é preciso ser Deus pra saber quem vai para o céu e quem vai para o inferno. Se o filme é anti-semita? Bem, não aparecem muitos judeus que vão para o céu, o que condiz com o resto dos exageros maniqueístas do filme. Se o Messias de Gibson tivesse tido alguma relação sexual nas suas últimas doze horas, A Paixão de Cristo seria um filme pornô.


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O Pagamento

Vendo um bom filme de James Bond, a gente aprende que, nem sempre, saber o final tira a graça de um filme. O Pagamento resgata esta sensação e se mostra um ótimo filme-pipoca. É o melhor filme de John Woo desde A Outra Face.

Não há duvida de que John Woo sintetiza com enorme habilidade a ação cool do cinema chinês, além de ter sido um dos pioneiros do embelezamento da violência no cinema do ocidente. O problema é ter virado objeto de culto. Ele está longe de ser um talento fora do seu nicho. Sem falar que seus últimos longas-metragens foram feitos no piloto-automático.

Depois da falta de inspiração de Missão Impossível 2, e de Códigos de Guerra, que ninguém engoliu bem, todo mundo passou a ficar com um pé atrás. O Pagamento chegou no Brasil com críticas desfavoráveis nas costas e Ben Affleck no elenco.

No início o clima do filme não convence totalmente. A adaptação não pareceu ter sido bem atualizada. Segways figurando na tela e uma parafernália tecnológica com um visual fake tipo Jornada nas estrelas ameaçam a credibilidade da história. Alguém agüenta computadores rodando programas auto-explicativos? Ainda parece realista? Woo parece não conseguir arrancar nenhuma expressão do rosto de Affleck – que consegue tirar várias, de constrangimento, da platéia. Mas Philip K. Dick mostra que merece a reputação que tem. O argumento do filme é tão legal que o espectador acaba querendo ser enganado.


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Anti-Herói Americano

Harvey Pekar é roteirista de uma revista em quadrinhos underground chamada, ironicamente, American Splendor (Esplendor Americano), que começou a fazer sucesso nos anos 80, no EUA. O protagonista suas histórias é uma versão adulta de Beavis ou Butthead, um adulto que cresceu em South Park. Mas este personagem não é uma caricatura sarcástica e bem-humorada da realidade. É a realidade.

Harvey Pekar de verdade...

Depois de perceber que seu trabalho como arquivista em um hospital em Cleveland poderia durar sua vida toda, e influenciado por Robert Crumb, desenhista de quadrinhos alternativos, arriscou uma carreira artística.

O problema é que Pekar, sujeito anódino, parecia não ter nada de bom para transmitir. Mas tinha consciência de que “a desgraça precisa de companhia”. Com um público alvo definido, começou a roteirizar sua miserável autobiografia em quadrinhos. Sim, ele é o personagem medíocre e cínico de suas próprias histórias. O sucesso moderado não trouxe muito dinheiro, mas graças a suas aparições no programa de David Letterman virou uma espécie de celebridade.

... e Paul Giamatti fazendo o papel de Pekar.O filme foi indicado para o Oscar de melhor roteiro adaptado e para o Globo de Ouro de melhor atriz coadujante (Hope Davis, que faz a mulher de Pekar). Recebeu prêmios em Cannes, Sundance, Deauville e foi escolhido o melhor filme de 2003 pela Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles em 2003. O bonequinho prefere ser cego.

Misturando imagens de arquivo e filmagens atuais do próprio Harvey com ficção, o filme adapta a história dos quadrinhos: a insignificante vida de Harvey Pekar, que apesar de ter responsabilidades adolescentes e viver nos EUA, umbigo do mundo, ainda diz que a “vida cotidiana é uma coisa muito complicada”. E isso não é só merchandising, ou uma crítica inteligente à cultura americana. É algo pior: uma espécie de Forrest Gump pessimista e assustadoramente real. Uma ode burra à cultura que faz qualquer tipo de sucesso parecer suficiente.

O roteiro do filme tem seus méritos. Ao juntar habilmente documentário e ficção, consegue fazer um documentário melhor e uma ficção melhor. Podemos, inclusive, comparar as excelentes atuações do filme com a realidade. Paul Giamatti, que interpreta Harvey Pekar é ótimo ator. Mas não basta, porque, além de um personagem sem conteúdo, não há ritmo. Dá sono.

Shari Springer Berman e Robert Pulcini, diretores do filme, tentam fazer as imagens parecer tiradas de quadrinhos, mas não chegam nem perto de Ang Lee, em Hulk. Não dá para tirar da cabeça que Paul Giamatti já fez um drama-comédia muito melhor junto a Jim Carrey: Mundo de Andy, que parece ser tudo que Anti-herói americano gostaria de ser em termos de ritmo e tom. Até mesmo A Vingança dos Nerds, fortemente citado na película, é um filme muito mais divertido.


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Avaliação Bonequinho Cego:


Compare Preços: Anti-Herói Americano, American Splendor