Como se fosse a primeira vez

Em Hollywood, bons argumentos são jogados no lixo o tempo todo. Notoriamente, Premonição, que se vendeu como um filme sobre o medo do destino – o que considerei uma sacada genial, na época –, acabou se agarrando ao nicho do terror adolescente.

A mesma falta de coragem fez com que Peter Segal colocasse tudo a perder em seu novo filme. A ótima premissa é exatamente o contrário do já clássico Feitiço do Tempo. No filme do Caça-Fantasma Harold Ramis o tempo passa para o personagem de Bill Murray, mas não para o resto das pessoas; no filme de Segal o tempo passa para todo mundo menos para a personagem de Drew Barrymore.

Sem aproveitar Adam Sandler como P. T. Anderson fez em Embriagado de Amor, o diretor de Como se fosse a primera vez fez um filme que oscila entre momentos Ace Ventura e momentos de surrealismo inspirado.

São esses bons momentos nos fazem imaginar que o material filmado poderia dar um filme muito bom se a edição não tivesse tanta preocupação de fazer um filme para a massa. Os atores são bons. Destaque para Sean Astin que faz o papel improvável de um marombeiro-narcisista que fala feito o Romário - quem imaginaria o melhor amigo de Frodo assim?


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Encurralado

Com uma versão em DVD garantida para este ano, nos EUA, Encurralado, primeiro longa-metragem de Steven Spielberg, já conta com uma cópia de alta qualidade na Internet, inclusive com som AC3.

Encurralado: automóveis como personagens principaisEste road movie filmado em 14 dias – com recursos muito limitados – nem de perto parece ser um filme do mesmo diretor de ET – O extraterrestre. O que não é uma crítica; é um filme mais adulto, que sem dúvida influenciou Mad Maxes e Mortes pedindo carona.

A história gira em torno de um tal David Mann, que, sem muitas explicações, começa a ser perseguido por um caminhão louco – mais do que por caminhoneiro louco – nas estradas do sul dos EUA. Os carros são personagens do filme, assim como a paisagem árida, que parece ter sido tirada de um desenho do Papa-Léguas. A película reflete a esperteza do então jovem diretor. Com um roteiro que não precisava de bons atores nas mãos, Spielberg sabia que a história só dependia de sua própria segurança para ser contada. E ele parece ter nascido com uma câmera na mão – conseguiu tirar 74 minutos de um apenas duas horas e meia de matérial filmado, mostrando seu controle total da produção.

É claro que existem muitos defeitos. A trilha sonora chinfrim, por exemplo, foi feita em dois dias e parece um plágio mal feito do clássico que Bernard Hermann compôs para Psicose, em 1960. Deve ser o único filme de Spielberg com uma trilha sonora inaproveitável - pois logo em Tubarão o diretor formou sua lendária parceria com John Williams. Em compensação, vê-se menos erros de continuidade do que se espera em uma produção feita às pressas. E o mais importante, diverte e prende a atenção.


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Kill Bill: Vol. 1

Depois de uma escorregada, Jackie Brown, Quentin Tarantino desistiu de fazer adaptações e começou a escrever o roteiro de seu próximo filme, Inglorious Bastards. Sem muita inspiração e provavelmente com medo de botar mais a perder com um filme pretensioso, deixou-o de lado e começou a trabalhar numa idéia que havia tido com Uma Thurman durante as filmagens de Pulp Fiction.

Uma Thurman pronta para matar BillAssim surgiu Kill Bill, película despretensiosa que homenageia um importante subgênero do cinema: filmes de vingança. Tão cinéfilo quanto cineasta, depois de seis anos assistindo e estudando filmes todos os dias, Tarantino tinha um arsenal de referências para fazer. Parte da graça de ver Kill Bill está em descobrir onde estão as referências para procurar os detalhes na Internet. Sim, porque as homenagens são tão obscuras que não há nenhuma possibilidade de alguém que não seja o próprio diretor descobrir de onde a maioria delas vêm. Um exemplo disso são as referências que Quentin fazia durante a produção a filmes que Daryl Hannah aparecera e que nem a própria atriz lembrava direito.

Mas não faz mal. É só entrar no cinema com um espírito de quem vai ver um filme do Bruce Lee, que tudo fica bem. A violência, que apesar de caricata, impressiona qualquer pessoa que nunca tenha jogado uma partida de Grand Thief Auto, se mistura com uma comédia ácida irresistível. Uma homenagem a filmes B que continua sendo um filme B. Mas um excelente e – paradoxalmente? – bem produzido filme B.

Em geral, a crítica, que talvez tenha tido o maior medo de criticar um filme tão cheio de referências sombrias, acabou falando bem de Kill Bill. Não sei até que ponto isso foi honesto, e até que ponto foi só pra tirar uma onda de cult. De qualquer maneira, foi um acerto.


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Madrugada dos mortos

A atualização do clássico de 1978, filmado por George A. Romero é tudo que pretende ser. Um thriller fantástico, quase um épico de terror. Nem é terror de meter medo (como O Chamado), nem terrir (como Cemitério Maldito). É um filme de zumbis que se leva a sério, na linha do recente Extermínio, só que bem maior.

Madrugada dos mortos: ambição e baixo orçamento
O primeiro filme da “Trilogia dos Mortos” de Romero, A Noite dos Mortos Vivos não é só um cult. Quando se fala de cult dá-se a impressão de que é um filme de interesse restrito, ligeiramente chato e adorado por alguns malucos. Não. O debut de Romero é um filme que mudou gerações de cineastas, que é referenciado e influencia o cinema até hoje. O filme é bom, e como um bom clássico, não sofreu muito com o tempo.

Já sua continuação (O Despertar dos Mortos-Vivos, de 78) não é tão universal. Apesar ainda ser um filme angustiante, a fotografia colorida pôs muito a perder – zumbis azuis? – e os anos 70 são bem caricatos em produções mais baratas. A refilmagem tinha muito a atualizar, e atualizou. As cenas de ação são muito bem feitas; o suspense e as relações entre as pessoas – conflitos no melhor estilo O Cubo – são mais complexos do que se espera de um filme de terror; os efeitos especiais são os melhores que os 30 milhões de dólares de orçamento (pechincha para um filme tão ambicioso) podem comprar. A gente se importa com os personagens e ri… ri muito de nervoso e do exagero das situações. O diretor estreante Zack Snyder e o inexperiente editor Niven Howie fizeram um ótimo trabalho.

Ah! Também tem a moral da história: “Crianças, nunca brinquem com uma serra elétrica dentro de um ônibus em movimento!”.


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Roubando vidas

Angelina Jolie tem sorte com os atores com quem contracena. Denzel Washington, Nicholas Cage, Antonio Banderas, Winona Ryder… A lista é impressionante. Neste filme, de D.J. Caruso – que é mais um diretor de TV do que de cinema, tendo mostrado serviço em séries como Dark Angel e Smallville –, Angelina trabalha com Ethan Hawke, fazendo o papel de uma agente do FBI que empresta seus serviços para a polícia canadense, num caso que envolve um Serial Killer, sua especialidade.

Angelina procurando outro psicopata no escuroAgora alguns vão dizer que eu vejo David Fincher em todo lugar que olho – mas eu juro que os créditos iniciais deste filme são uma cópia da abertura de Seven, com o psicopata da vez tirando as digitais dos dedos e então lixando a pele como em Gattaca, para não deixar vestígios de DNA na cena do crime. Ao menos as “referências” são de muito bom gosto.

O importante é que o filme prende a atenção. Às vezes apelando para violência explícita, às vezes com clichês. A polícia de Montreal, por exemplo, parece ter um efetivo de cinco policiais – os que cuidam do caso. Não é um filme que vá marcar a vida de ninguém, mas depois do segundo Tomb Raider, um dos piores filmes que eu já vi no cinema, já dá pra começar a desassociar o nome de Angelina de maus filmes.


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