A janela secreta

David Koepp já assinou mais filmes como escritor do que como diretor – notoriamente Jurassic Park, Missão Impossível, O Quarto do Pânico e Homem-Aranha (1 e 2). Não faz feio, adaptando e dirigindo seu novo trabalho. As histórias de Stephen King já renderam obras-primas e fiascos, de modo que dizer que o filme é uma adaptação de uma obra dele não vale muita coisa.

Johnny Depp na tranquilidade do larA história gira em torno de um escritor, Mort Rainey, que depois de pegar sua mulher com outro, se isola numa casa no meio do nada, para tentar trabalhar. Certo dia, um visitante caipira bate a porta, acusando Mort de ter roubado um conto de sua autoria.

O terror psicológico nos lembra O Iluminado, e o escritor buscando paz para trabalhar chega mais perto de Estranha Obsessão – note uma ligeira reciclagem de temas. A trilha sonora, competente, é assinada por Philip Glass, cujo criticado trabalho anterior foi compor a música do documentário Sob a névoa da guerra.

O filme se segura bastante na atuação de Johnny Depp, e acho que estaria bem comprometido se não fosse pelo seu talento e, mais especialmente, pelo seu carisma. Já o final, que como o trailer do filme diz é “a parte mais importante da história”, não chega a ser uma surpresa. A colaboração de Koepp, em outras datas, com David Fincher não passa despercebida.


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Matrix revolutions

No cinema, com uma tela grande e um som imponente, filmes de ação são sempre um pouco melhores. Mesmo assim, todo mundo saiu da estréia de Matrix Revolutions decepcionado. A expectativa para o final da trilogia era enorme – depois de Reloaded nada estava definido, tudo podia acontecer.

O Matrix original era um filme que amarrava as pontas e saciava todas as nossas curiosidades. O fantástico era explicado logicamente e as cenas de ação pareciam ser só uma esnobada tecnológica de quem tinha um ótimo roteiro nas mãos. A filosofia, dita en passant, era elegante e despretensiosa.

Agora vamos imaginar exatamente o contrário disso tudo: excesso de efeitos atropelando um roteiro mal escrito; filosofia explicadinha nos mínimos detalhes, quebrando o ritmo; coisas muito mais fantásticas sem nenhuma explicação plausível. Este é Revolutions. A sensação é de que os irmãos Wachowski pisaram de propósito no próprio castelinho de areia.

Em DVD, sem o impacto de uma telona de cinema, os defeitos são mais devastadores ainda. Vou concentrar as críticas no roteiro que, como poderia ter dito David Mamet, não ficaria tão ruim se não fosse por pura preguiça de Larry e Andy em achar soluções melhores para os clichês. Algumas pérolas: o garoto que puxa o saco de Neo por tê-lo salvo em um dos Animatrix – “Neo! Eu Acredito!”; Trinity, que não reconhece os padrões cerebrais de uma pessoa plugada na Matrix, quando vê o exame de Bane – na realidade agente Smith, inexplicavelmente encarnado no corpo de uma pessoa do mundo real; os robôs APC, que são uma cópia descarada da empilhadeira de James Cameron em Aliens – O Resgate. O problema nem é exatamente a cópia, mas a incoerência de uma máquina de guerra que não tem nenhum tipo de blindagem ou proteção para o piloto – até um cisco no olho poderia ser fatal. Tá bom, né? Falar mais é chutar cachorro morto.


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O retorno do talentoso Ripley

Apesar do atraso da chegada ao brasil, do título tupinambá ser oportunista – quase sempre mau sinal – e da economia na produção, O retorno do talentoso Ripley é umas das melhores surpresas em cartaz nos últimos tempos. Em muitos aspectos, o filme de Liliana Cavani é superior abastada produção de 1999. John Malkovich faz um Tom Ripley maduro e cínico que nos remete a frieza de Sean Connery nos bons tempos de 007. A violência sem floreios, quase tarantinesca, é risível pela crueza.

Na Itália, Ripley recebe uma agulhada mal educada de um vizinho mais pobre. O “Jogo de Ripley” trata da vingança que Tom arma ao tentar coagir o homem, que está numa situação cheia de revezes, a virar um assassino de aluguel.

A economia da produção é evidente nos cenários. Mas, de certa maneira a falta de frescura com o acabamento dá um tom elegante ao filme. Se a mansão de Ripley tivesse 20 empregados, a película não teria o mesmo charme. São os atores que dão o tom elitista ao filme.


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Roger e Eu

Depois de vibrar com Tiros em Colubine no Festival do Rio, em 2002, ler Stupid White Men e baixar todos os episódios de TV Nation na Internet, aprendi a admirar e ser cético quanto a Michael Moore.

Michael Moore: estilo inconfundívelEle sabe o que quer, tem inteligência e humor afiado. Ironiza as contradições desumanas do capitalismo como quase ninguém. Mas é preciso saber que ele não é imparcial. Nem é seu objetivo, claro – o que não faz dele um documentarista pior. É um estilo, mas é preciso enxergar isso ao ver seu trabalho. O espectador deve ter a consciência – que Moore tem – de que, às vezes, uma boa piada substitui uma análise mais profunda das questões.

Em Roger e Eu, seu primeiro longa, Michael Moore conta a história de Flint, sua cidade natal, que, depois de ter sido atingida pela decisão da General Motors de mudar suas fábricas para o México, acabando com cerca de 30 mil empregos, virou a cidade mais violenta dos EUA. Como em seus outros trabalhos, Michael parte de uma situação consensualmente ultrajante e procura suas causas.

No filme, vemos um diretor amadurecendo e definindo suas assinaturas. Muitos dizem que sua mania de aparecer na frente das câmeras é puramente egocêntrica. Discordo. Com seu visual simples, de boné e calça jeans, faz o papel de uma pessoa comum que, com bom senso, argumenta racionalmente no meio de declarações freqüentemente absurdas. Ele é uma figura carismática e por isso mesmo a fórmula funciona; sempre com ajuda de uma excelente - e, esperamos, honesta - edição.


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Bicicletas de Belleville

Sylvain Chomet, diretor deste excelente longa de animação que concorreu ao último Oscar, gosta de alegorias. Tudo em Bicicletas de Belleville tem interpretações mais profundas que à primeira vista. É um filme lento e assim mesmo hilário, que faz questão de mostrar suas origens e suas diferenças. E não, as crianças não vão gostar.

Logo no início da película vemos Fred Astaire dançando, quando seus sapatos tomam vida própria e devoram-no. Este é só um exemplo de como o filme ilustra a influência dos objetos, e do capitalismo, nas pessoas, mesmo que elas não estejam conscientes disso.

As trigêmeas do título original, ainda jovensA história se passa em torno de um garoto que, ainda criança, se apaixona por pedalar. Sua única família é sua avó, que o incentiva e treina, e seu cachorro, Bruno (há há, eu sei). O tempo passa e o meio-ambiente deles é completamente influenciado pelo “progresso”. Suas vidas parecem permanecer inalteradas, mas, numa competição de ciclismo – o Tour de France –, quando o jovem começa a se destacar, algo acontece. São os sapatos engolindo o dançarino.

Em fevereiro, quando anunciaram que Procurando Nemo levara o Oscar de Melhor Longa de Animação, fiquei um pouco chateado. Justiça seja feita, Nemo é melhor que Bicicletas, mas uma animação corajosa e adulta ganhar o Oscar faria muito melhor para o cinema do que mais um prêmio de animação para a Pixar.


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