Sob a névoa da guerra

Alguns críticos brasileiros não andam vendo Sob a névoa da guerra livres de preconceito. Parece que qualquer filme que não mostrasse Robert Mcnamara como o diabo encarnado seria tratado como uma bobagem, produto distorcido do imperialismo ianque.

Sob a névoa da Guerra: versão de McNamaraA injustiça, em parte, é cometida por não enxergarem que o propósito da obra não é a investigação da verdade, ou o confronto de opiniões. Não é um filme de Micheal Moore. O documentário só registra a versão de Robert McNamara dos acontecimentos. Uma versão corajosa de um homem que mostra sinceridade, admite erros e em certo ponto até diz que se os EUA tivessem perdido a Segunda Guerra ele seria considerado um criminoso de guerra.

Claro, o ponto que interessa a todos não é este, e sim o tempo em que ele foi Secretário de Defesa. Aí muitos dizem que o diretor Errol Morris foi manipulado, que não interrogou ou confrontou McNamara da maneira correta. Absurdo. Morris conhece o princípio da incerteza, sabia de sua influência no entrevistado e tinha consciência de que, apesar de algumas confissões, McNamara estaria interessado em deixar uma boa imagem de si mesmo na história. Então, quando questionado pelos seus erros e sua culpa sobre o fiasco no Vietnã, McNamara, não perdendo a sinceridade – o que poria toda a credibilidade de suas declarações a perder – omite algumas respostas. Compreensível, para um homem que quer contrabalançar as opiniões exaltadas que o mundo tem sobre ele.

O que se vê na tela é um documentário sobre um homem racional, feito por outro homem racional. Um banho de bom senso que se destaca de todo sentimentalismo, caminho fácil dos documentários mal feitos. As onze lições a que se refere o título original, longe de óbvias, são de extremo valor.

Não espere uma entrevista com um Nobel da Paz. Antes de entrar no cinema, livre-se de todos os argumentos baratos do pacifismo utópico. O homem retratado em Sob a névoa da guerra era um homem de ação, pragmático, que diz ter tomado as melhores decisões que pode, quando precisou tomá-las. Em beneficio de seu país, claro – e quem pode culpá-lo por patriotismo?


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Looney Lunes de volta à ação

Os personagens dos desenhos clássicos da Warner Bros. são bidimensionais em todos os sentidos. Suas personalidades simples sempre ajudaram a comédia ágil das curtas animações. Um longa metragem não conseguiria inserir complexidade nos personagens sem descaracterizá-los completamente.
Encontro de titãs: Martin e Marvin
Esse problema havia sido bem resolvido com Uma Cilada Para Roger Rabbit, primeiro filme bem sucedido em misturar desenhos e atores. Os atores ajudavam a desenvolver a trama e os cartoons ficavam com as piadas. Seguindo o exemplo, Space Jam deu quase toda a atenção aos personagens de carne e osso. O problema é que o “protagonista” desta história era Michael Jordan que não é ator, nem mostrou carisma. O fracasso foi completo, desagradando mesmo para quem curte desenhos e é fã de basquete.

Looney Tunes de volta à ação também bebe da mesma água, mas Joe Dante faz um bom trabalho. Os atores, bem… os atores são atores de verdade. Brandan Frasier convence mais como comediante do que como galã de filmes de ação. Timothy Dalton – que eu sempre achei um ótimo James Bond, apesar de todo mundo falar o contrário – faz um papel secundário de primeira, e Steve Martin, exagerado, mostra algumas nuances de como vai ser sua versão do Inspetor Clouseau na refilmagem da Pantera Cor de Rosa. Todos dão suporte à atuação dos personagens animados que repetem, sem nenhuma vergonha, as mesmas piadas dos desenhos clássicos de Chuck Jones, Friz Freleng, Robert McKimson e cia.

Pernalonga e Patolino: os heróis da açãoMas não são só referências de desenhos animados: temos Batman, Psicose, Vampiros de Almas etc. O filme é repleto delas, algumas óbvias e outras difíceis de encontrar. Um prazer à parte para os cinéfilos, que ficamos tentando achar todas – só esquentando antes de Kill Bill Vol.1 estrear.

A interação dos personagens 2D com os atores não é tão boa como as que ficamos acostumados a ver nas animações 3D, e talvez o estilo de humor já esteja datado. O apelo do filme parece ser maior para um adulto nostálgico (e bobo?) do que para crianças habituadas a animes, Dexters e Nemos. Espero que eu esteja errado.


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Elefante

Quando faz um filme, o diretor tem de decidir o quanto ele vai ser pessoal e quanto vai ser explicado ao público. Um dos extremos deste espectro é usado indiscriminadamente nas produções de Hollywood. Em Independence Day, um distraído espectador míope que está sentado na última fileira à esquerda entende o filme da mesma maneira que o mais atento dos críticos especializados. Não há mistério. O filme não é uma experiência pessoal pra ninguém. O outro extremo do espectro é o tipo de filme que os franceses gostam e Cannes premia – vide Dirigindo no Escuro. Filmes pessoais onde o tom é dado mas nada é explicado são difíceis de ser avaliados – cada um enxerga o que quer. Elefante é este tipo de filme.
Elefante: filme cabeça premiado em Cannes

Levado lentamente com Beethoven ou só ao som ambiente, o filme nos faz observar, como em um documentário, a história real de um dia na vida de alguns estudantes de uma escola em Portland. Com o ritmo lento, Gus Van Sant dá tempo de sobra para nos colocarmos no lugar dos adolescentes e pensar em como pode ser desagradável para qualquer jovem esclarecido o ambiente hospitalar, clean, e a vida do interior dos EUA. Parece que todo mundo é uma bomba relógio e o espectador tenta adivinhar quem vai explodir primeiro.No geral, os jovens atores não parecem de primeira linha, mas não comprometem - os que fazem os papéis mais delicados parecem talentosos. A fotografia é hábil quando alterna entre ambientes internos e externos na mesma tomada e quando transmite o visual limpo do colégio. O diretor de Elefante já fez todo tipo de filmes: bons, ruins e chinfrins. Desta vez ele acerta para quem gosta de filmes pessoais e erra para quem não gosta de filme que dê tempo para refletir. O bonequinho, humildemente, pensa sobre o assunto…

Num país onde a competição e o individualismo são levados ao extremo, surge uma cultura radical e conservadora que transforma os detalhes em essência e essência em detalhe. Um jovem numa idade de aprovação, que se sinta fora do páreo, pode querer mostrar seu valor arrancando respeito à força. Some isso a uma liberdade absurda para comprar armas fabricadas com o único propósito de fazer uma chacina e você tem um… Elefante.


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Protegido pela Lei

Quando a gente entra numa locadora e vê um filme de uma distribuidora secundária, lançado direto em vídeo e com uma capa mal feita, fica com um certo preconceito. Talvez não seja tão injusto, afinal, quando um filme bom chega no Brasil, as grandes distribuidoras pagam mais para ganhar mais.

Protegido pela lei (ah, esses tradutores de títulos…), filme feito para TV pelo novato Robby Henson, é uma exceção à regra. Com Patricia Arquette e o sempre excelente Billy Bob Thornton no elenco, vale mais do que dois ou três policiais exageradamente produzidos, como Bad Boys II.

Patricia Arquette e Billy Bob Thornton na telinha
A história se passa numa cidadezinha no interior dos EUA, onde um xerife preocupado com as aparencias nas vésperas de eleições deixa, intencionalmente, a investigação do assassinato de um transexual sem investigação. A trama – que ao contrário do que dizem alguns é muito bem explicada – envolve o submundo homossexual de New Orleans, e o roteiro, de autoria do próprio Henson, critica firmemente, com elegância e sem pintar caricaturas, os preconceitos do interior dos EUA e as contradições da política americana, que Republicanos ou Democratas, são farinha do mesmo saco.

B. B. Thornton, que anda escolhendo muito bem seus filmes, adota, como de costume, um estilo Clint Eastwood com um toque de cinismo - interpreta tão bem calado quanto falando. Atuação irresistível.


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Amor à queima roupa

Quanto um filme é de autoria do roteirista, quanto é de autoria do diretor? Esta é uma daquelas perguntas sem resposta. Certo é que quando um cineasta de talento toca em um projeto, deixa sua assinatura. Para ficar bom, um filme deve somar boas idéias em cada passo de sua produção. O autor imagina, o diretor vê. Figurinista, diretor de arte, diretor de fotografia; cada um destes contribui um pouco para que a experiência de assistir o filme fique mais densa e real.

Primeiro roteiro de Tarantino: talento evidente na tela.Ainda sem versão em DVD no Brasil, Amor à queima roupa, o primeiro roteiro de Quentin Tarantino – mas que só foi produzido depois de Cães de Aluguel – tem a assinatura de seu criador. Além de ter uma história sensivelmente pessoal – Tarantino trabalhava numa videolocadora, quando escreveu essa história sobre um cara que trabalhava numa loja de gibis – abusa de artifícios que foram reutilizados em seus outros filmes: nomes repetidos de personagens – por exemplo, Alabama – e até diálogos inteiros que aparecem em outros filmes – “Eu pareço uma loira de peitos grandes? Então por que é que você quer foder comigo?”, pronunciada quase ipsis litteris por Samuel L. Jackson em Pulp Fiction.

Seguindo os passos para o sucesso, além do roteiro antológico e da direção segura de Tony Scott (Top Gun, Um Tira da Pesada II, Jogo de Espiões, etc) o filme conta com um elenco inacreditável: Christian Slater, Patricia Arquette, Dennis Hopper, Gary Oldman, Brad Pitt, Christopher Walken, Samuel L. Jackson, Tom Sizemore, entre outros. A maioria deles fazendo pontas quase figurativas. Val Kilmer faz papel de Elvis Presley (!) sem que seu rosto apareça focalizado sequer uma vez.

Somos, lembremos, o último país a lançar Kill Bill Vol.1 nos cinemas. E enquanto no Brasil nem Amor à queima roupa, nem Um Drink no Inferno são lançados em DVD – e Jackie Brown e O Grande Hotel têm versões em formato fullscreen, se você conseguir achá-los – lá fora o “Bonnie & Clyde dos anos 90” ganhou um DVD especial, duplo, onde encontramos três comentários de áudio, sendo um só de Quentin Tarantino. É pagar pra ver. Em dólar.


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