O dia depois de amanhã

Roland Emmerich, o alemão mais americano de todos os tempos, poderia entrar, junto com Jean-Claude Van Damme, na lista das celebridades hollywoodianas que nunca fizeram um trabalho bom em suas carreiras (Curiosamente, esses dois já se encontraram em uma produção trash, nos anos 90). Depois de fazer pelo menos cinco bombas consecutivas, quem esperaria um filme razoável? Ninguém. Talvez a surpresa seja o segredo do sucesso.

O dia depois de amanhã: Roland Emmerich destrói Nova Iorque novamente
Com uma trama menos nojentamenteamericana do que a de seus filmes anteriores – até colocando os EUA como vilões da história – e um certo realismo (não esperem muito), a película nos remete mais a Impacto Profundo do que a qualquer outro filme-catástrofe. Emmerich não tenta ser cool o tempo todo, nem explora demais as cenas de destruição. Às vezes força uma barra para criar cenas de ação – como o ataque dos lobos de zoológico – mas isso não chega a incomodar tanto.

Os efeitos são bons, e as cenas menos realistas são as que envolvem água digital. O elenco chama a atenção pela irregularidade. Atores do calibre de Ian Holm e Jake Gyllenhaal, o Donnie Darko, contracenam com canastrões do porte de Dennis Quaid – que cospe explicações cientificas com cara de quem não está entendendo as próprias palavras.

Ver o filme num daqueles cinemas que parece que economizou dinheiro tirando o termostato do sistema de refrigeração, também ajuda a entrar no clima. No frio exagerado, enquanto o compressor do ar condicionado vaza CFC na atmosfera, parece que a era glacial já chegou. E a ressaca levanta ondas de três metros, sujando a Vieira Souto de areia.


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O senhor dos anéis: o retorno do rei

Talvez os extras de um DVD não sejam tão importantes assim. É claro que um material extenso sobre um filme que a gente gosta muito vale mais dez reais do nosso dinheiro, mas dificilmente a gente vê aqueles documentários mais que uma vez. Já um DVD bem tratado – com imagem widescreen anamórfica, som de qualidade, legendas bem feitas, e até uma embalagem robusta – é útil, pois é o filme que vemos várias vezes.

Ian McKellen: Gandalf com a mão na massaSeguindo a linha dos seus antecessores, o disco de O Retorno do Rei é feito com cuidado. Mas os extras são ruinzinhos; dois documentários de vinte e poucos minutos que repetem os mesmo trechos de entrevista, spots de TV, mini-documentários da Internet e um “Trailer da Triologia” muito sem graça – que perdeu a oportunidade de ser um clipe da já clássica trilha de Howard Shore, do jeito que o DVD de Gladiador faz com a música de Hans Zimmer. E o documentário da National Geographic é o mesmo que passa no NGC, que, quando vi, dias antes da estréia do filme nos cinemas, pensei “Eu ia ficar muito revoltado se comprasse um disco da National Grographic com um documentário deste nível”. Ironia… acabei comprando sem querer.

Agora, o filme é uma experiência de vida. E como ele arrecadou mais de um bilhão de dólares mundo afora, acho que todo leitor do Bonequinho Cego já viu. Atenção para a cena dos Cavaleiros de Rohan chegando em Pelenor, que é mais emocionante no filme que no livro – de arrepiar.

O Retorno do Rei: épico até o último olifanteMais do que justos, os onze Oscar. Analisando cada um deles, talvez não. Mas se a canção de Annie Lennox – que é muito inferior a de Enya, em A Sociedade do Anel – podia ter perdido para a empolgante musiquinha de Bicicletas de Belleville, sua fotografia pareceu mais merecedora do prêmio que a de Mestre dos Mares, apesar de nem ter concorrido nesta categoria.

Agora esperamos que Peter Jackson dirija o Hobbit, que haja uma mini-série da HBO sobre O Silmarillion, que os Contos Inacabados virem uma novela da Globo e que o as aventuras de Tom Bombadil virem desenho animado no Cartoon Network. Não duvide!


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Highlander - o guerreiro imortal

Clássico dos anos 80, só foi lançado agora em DVD, no Brasil. Com uma edição muito mal tratada e pobre de extras, os fãs do filme vão ter que abstrair legendas que, além de erros técnicos – alguns timecodes aparecem na tela (!) –, tiveram um tradutor que parece nem ter visto o filme. O som, apesar de estar em 5.1 canais, não está nada bom para os padrões atuais. O que salva é a imagem; de ótima qualidade - apesar da mudança de layer mal feita. A fotografia, um dos pontos fortes do filme, é valorizada pelo formato original widescreen e que faz a experiência de ver o filme em DVD muito diferente de ver em VHS.

Connery: atuação imortalizadaNão adianta falar muito sobre o filme: é essencial para qualquer cinéfilo. Se você ainda não viu, pelo menos já ouviu falar. O próprio termo “Highlander”, virou referência no dia-a-dia. Nas últimas duas décadas o filme só se desatualizou pelos efeitos especiais que não foram muito caprichados, mesmo para época, e hoje em dia constrangem um pouco. Vemos alguns fios pendurando Christopher Lambert na cena final e lembramos que Ghostbusters, por exemplo, havia sido lançado dois anos antes. Mas a fotografia impecável, a sempre excelente atuação de Sean Connery e as músicas do Queen acabam eternizando este filmaço.

E todos viveriam felizes para sempre, mas… Cinco anos depois o mesmo Russell Mulcahy, comprovando que Highlander foi um lapso de genialidade em sua carreira de diretor, cometeu uma continuação que também virou referência: Highlander II é uma das piores continuações da história do cinema. Este já saiu em DVD há tempos. Até em banca de jornal.


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Falando de Sexo

Sabe aquele tipo de filme que não envelhece? Falando de sexo não é um desses. Talvez o nome recém fortalecido de Bill Murray tenha sido a razão para Europa Filmes fazer o lançamento tardio desta comédia. O bonequinho não consegue enxergar outra.

De 2001 pra cá, muitos filmes zombando a cultura americana de ganhar dinheiro às custas de processos e separações nos tribunais inundaram as salas de cinema, fazendo esta produção francesa envelhecer ainda mais; O amor custa caro, excelente comédia dos Irmãos Coen e Laws of Attraction, ainda inédito no Brasil, são os mais recentes exemplos disso.

Falando de sexo: pastelão demaisJohn McNaughton quis fazer um pastelão sensível – gênero com poucos acertos na história – e acabou constrangendo sensíveis e despretensiosos. As atuações são forçadas ao ridículo por culpa da direção - que só poupa Bill Murray, no seu adorável “papel de Bill Murray” de sempre.

Claro, algumas piadas de tribunal valem boas risadas. Mas a única coisa que ultrapassa as expectativas é a deliciosa trilha original de George S. Clinton, cujos trabalhos mais importantes até agora são as trilhas dos três filmes de Austin Powers, quase sempre apagadas pelas canções e menções às trilhas de 007.


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Diários de motocicleta

“Fomos para Havana e Alberto Granado nos alimentou com dez horas de entrevista sobre a sua viagem pela América do Sul com Ernesto Che Guevara, em 1952. E ele o fez, sem nenhum interesse em embelezar a história”. As palavras de Walter Salles, diretor de Diários de Motocicleta, caracterizam exatamente o que é o filme. Uma produção simples, justa e que mostra os melhores momentos da história dos dois aventureiros, antes de Che se embrenhar na revolução cubana.

Gael e Rodrigo no deserto de AtacamaApesar do roteiro se mostrar um pouco cansativo no final, Diários de Motocicleta se destaca pelas belas paisagens dos países por onde os dois passaram (no filme, Gael García Bernal é Che Guevara e Rodrigo De la Serna, Alberto Granado), além de mostrar alguns detalhes interessantes da viagem, tais como as quedas ou quebras da moto La Poderosa (uma Norton 500, de 1939) e as caminhadas pelo deserto do Atacama ou pelas montanhas peruanas.

Walter Salles comprova sua fama de bom diretor ao juntar três elencos diferentes (um na Argentina, outro no Chile e o último, no Peru) e identificar e apresentar artistas desconhecidos e talentosos. Os personagens se misturam aos protagonistas da história como se fossem atores experientes. Entre os destaques, podemos lembrar o casal de mineiros chilenos e Márcia, a mulher peruana que teve de amputar o braço por causa da epidemia de lepra.

Foto exclusiva, por Mauro Ramos - “Che” em Copa: Gael Garcia Bernal, em Copacabana, fazendo uma gravação para o programa Caldeirão do HulkO diretor fez questão de mostrar, além dos locais, as dificuldades por que os dois aventureiros passaram e as culturas apresentadas em cada país. O filme se torna cômico em algumas passagens, como a dança do Chipi Chipi nos Andes Chilenos e o “muro dos inca-pazes” no Peru. Mas com o passar da narrativa e a mudança nos pensamentos de Che Guevara, a história ganha emoção. As cenas finais, como o mergulho de Che para comemorar seu aniversário com os leprosos e a despedida dos dois viajantes, arrancaram lágrimas de alguns.


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