Tropa de Elite

Não raro o bonequinho escreve sobre um filme antes de ele ir para as salas de cinema brasileiras. Isso nunca tinha acontecido com um filme nacional porque o cinema brasileiro tem tão pouco apelo popular e é tão tecnologicamente atrasado que nunca foi capaz de ser decentemente pirateado.

Tropa de Elite é bom. Mas não é um “filme brasileiro bom”, como os críticos costumam avaliar. É um filmão, mesmo. Nível de Cidade de Deus do ponto de vista de roteiro e direção de atores e uma porrada muito, muito, maior no estômago.

Não dá para criticar o filme sob os aspectos mais técnicos porque ele foi copiado antes da finalização. Não vou falar de fotografia antes do tratamento final da imagem nem do som antes da mixagem - que está sendo feita lá fora. Vou me ater, então, aos outros aspectos.

Como os leitores com tendências mais filosóficas do Bonequinho bem sabem, um filme de ficção bem feito tem muito mais impacto do que um documentário sobre o mesmo assunto. Por algum motivo estranho nossos miolos se comovem mais com uma mentira envolvente com personagens com os quais conseguimos nos identificar do que com uma verdade crua mas distante exatamente por ser específica.

A história de Tropa de Elite, pela natureza generalista da ficção, é “todas as histórias juntas”. Picasso já disse: O artista fala a verdade contando mentiras. Esse é um grande exemplo disso. Se não houver uma ruptura muito grande, daqui a um ou dois anos a população toda vai enxergar a polícia da maneira que ela é mostrada neste filme. Para bem ou para mal.

Não quero avaliar a arte pelo seu valor social, mas as vezes essas coisas se confundem graças a genialidade do autor. Quem quer fazer panfleto costuma gerar arte ruim, mas às vezes a arte boa tem um papel social gigantesco. (Rousseau e a revolução francesa…). O filme nos dá uma esperança meio assustadora com heróis que assassinam, torturam, esculacham inocentes, mas resolvem os problemas.

A violência do Rio tem efeitos estranhos. Ninguém sensato é contra a democracia, mas as pessoas valorizam abertamente atitudes fascistóides quando o assunto é segurança pública. É exatamente este o ponto mais importante do filme: não dá pra acabar de vê-lo sem virar um fã do BOPE. A coragem altruísta, incorruptibilidade e atitude determinada da tropa de elite é exatamente o que a nossa cidade precisa. Ela contrasta com toda a dissimulação, hipocrisia, egoísmo e covardia dos oficiais que o sistema corrupto gerou.

Mas não podemos deixar de pensar: Precisamos mesmo de heróis assim? Esta é a única solução para voltar a acreditar no estado e na polícia? Estamos falando dos vícios da paz e das virtudes da guerra. Essa discussão é tão antiga quanto a disputa entre Esparta e Atenas e a Guerra do Peloponeso - e tão atual!

Capitão Nascimento deixa Jack Bauer no chinelo e o filme vai ser um sucesso de bilheteria não importa quantos DVDs piratas sejam vendidos na Uruguaiana.

Por último, um comentário sobre José Padilha que, em sua carta para o jornal O Globo, atacou os jornalistas e autoridades que confessaram tácitamente seu crime (ao menos moral) comentando um filme que ainda não havia sido lançado. A crítica foi também para a hipocrisia de quem, para fugir de problemas legais, disse que não viu o filme, mas “conhece quem viu” ou “ouviu falar”. O que será que Padilha dirá quando perguntarem sobre as verdades de seu filme? Ele não dirá que tudo é uma obra de ficção? Isso será menos hipócrita?

Interessante observar quanto o autor não tem noção da importância de sua obra. Padilha está pensando no copyright - tão mundano - sem perceber que seu nome deve entrar para a história do cinema nacional. Neste caso, dinheiro é conseqüência. Sua obra é tão importante que deveria se tornar obrigatória para todos os cidadãos que pagam IPTU na cidade do Rio de Janeiro. E para os moradores de favelas que não pagam também.


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Caixa Dois

O filme começa com vontade de ter diálogos tarantinescos, mas não empolga. Começa agil, mas parece que não vai a lugar algum. Aí vêm os créditos iniciais com um desenho animado pouquíssimo inspirado. Tudo indica que vão ser duas horas de tortura em língua natal. Errado.

Depois dos primeiros minutos, enquanto você se acostuma com o tom de farsa, as qualidades de Bruno Barreto começam a aparecer. Todos os atores mais-manjados-impossível parecem convincentes nos seus papéis, e o filme realmente foge da sua maior armadilha, que era de teatralizar demais o roteiro que é uma adaptação dos palcos.

E depois da primeira hora vc começa a ver que pode haver um “algo mais”.

Eu sei que em tempos de Albergues, e Jogos Mortais eu não deveria me impressionar com a violência no cinema. Mas é justamente o que o cinema brasileiro tem de mais importante - a proximidade com a realidade do espectador - que impressiona: A corrupção é mostrada com complacência.

Em tempos de exclusão social a única violência indesculpável é o roubo de quem tem dinheiro. Mas todo mundo sabe bem como é a cultura do se dar bem. Em Caixa Dois o vilão é conjuntural. Qualquer um dos personagens que estivessem no lugar dele dariam um bom vilão. E é esse banho de realidade impressiona e faz com que o filme não seja mais uma comediazinha.

Depois do filme, vale a reflexão: São os documentos históricos que nos contam os fatos do passado, mas é a ficção que revela o que as pessoas realmente pensavam.


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Sunshine - alerta solar

A ficção científica - digo a científica mesmo, não a fantasia - é um gênero para poucos autores. É preciso ter muito talento para dosar corretamente verossimilhança, deslumbramento pelo fantástico e uma história que valha a pena ser contada.

Depois de Trainspotting, Cova Rasa e Extermínio, Danny Boyle já provou seu talento como contador de histórias. Por que não se aventurar pela Sci-Fi? O tema é bom, os personagens são bons, os atores melhores ainda; mas as soluções visuais são um deja vù de 107 minutos.

Os temas espinhosos abordados passam por: isolamento e uma conseqüente paranóia; disputa entre decisões de homens e máquinas; o paradoxo da necessidade de ignorar a humanidade do indivíduo para salvar a espécie humana; o contato do homem espacial com a força criadora etc. Bem ambicioso, não? Ao enfrentar esses temas, Boyle correu pelo caminho seguro e repetiu as fórmulas dos mestres que já haviam tratado desses assuntos. Há muitas referências dos clássicos do gênero e é isso que impede que Sunshine se torne um deles.

O filme não é óbvio nem absurdo e se você for vê-lo depois de uma crítica que nem esta, é capaz de gostar muito dele. Eu só esperava mais coragem de um diretor que, depois de algumas pancadas de Hollywood, resolveu seguir um caminho independente. Reparem o selo da Fox Searchlight e sua interação com o início do filme - bem legal!

Outra observação é quanto ao que a crítica d’O Globo esculhamba: Os sustos à Sexta-feira 13 talvez sejam a única solução que carrega a assinatura do diretor e as imagens borradas ou tremidas são uma maneira (já usada no 2001 de Kubrick) de mostrar graficamente a distorção do espaço-tempo quando se está sob uma influência gravitacional tão grande.

Esses críticos são professores de corrida pernetas. Ou bonequinhos cegos.


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300

Sou da época do boom de vendas das histórias do Homem-Aranha com o Todd McFarlane. Eu realmente ficava empolgado com os quadrinhos, mas eu gostava do Homem-Aranha, não do McFarlane. Admitia, claro, que alguns desenhistas eram melhores do que outros - sempre comparando o realismo dos desenhos - e Alex Ross era um monstro sagrado, independente dos seus roteiros.

Anos depois, numa idade que já ficamos constrangidos de comprar gibis numa banca de jornal, comecei a reler alguns clássicos, agora reparando nos seus autores. Fui experimentando outros gêneros com Art Spiegelman, Scott McCloud (um divisor de águas para minha cultura), Allan Moore, Frank Miller… Vamos parar nele.

300 não é a melhor obra de Frank Miller, mas tem uma estrutura sólida. A história de Leônidas nas Termópilas é emocionante, empolgante e atemporal. Miller colocou estilo.

Como deveria ser em qualquer adaptaçao, Zack Snider somou seu talento às outras camadas de talentosas interpretações que a história dos 300 de esparta teve durante mais de 2000 anos. A personalidade da visão de Miller prevalesceu e seu estilo cartunesco combina perfeitamente com a visão o diretor de Madrugada dos Mortos.

Ao contrário de Capitão Sky e o Mundo de Amanhã - outro filme totalmente desenhado em CGI -, cada frame artisticamente pensado faz a história crescer. Todos os atores, com destaque para Gerald Butler, entregam uma atuação verossímil num mundo de gigantes e lobos com olhos que brilham. Os coadjuvantes são excelentes e saltam aos olhos em cada frase de efeito, mas sem nunca tirar a força dos protagonistas - uma metáfora metalingüistica do que Leônidas fala sobre a força de um rei estar nos homens ao seu lado. E ainda bem que Santoro não se destacou tanto: Nenhum filme clássico precisa de um Coringa que eclipse o Batman.

Vá esperando uma boa adaptação de quadrinhos como Marcas da Violência, Sin City ou Batman Begins e saboreie 300 como um clássico. Depois de tantos exemplos populares de como HQs podem ser uma forma de arte, já saio de casa carregando meu exemplar de Batman - O Cavaleiro das Trevas orgulhosamente, como se estivesse com um Dostoievski.


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Terra dos mortos

Sim, eu gosto de filmes de zumbis! E como o Omelete já disse: ver um Romero nos dias de hoje é como ver um Hitchcock 20 anos depois.

Mexicanos atravessando a fronteira - Metáforas de primeira!Os zumbis evoluiram para acompanhar a metáfora de Romero: A divisão social entre o primeiro e o terceiro mundos. A população dos países pobres vai, aos poucos, aprendendo a parar de olhar deslumbrada para a cultura dos ricos (fogos de artifício) equanto tem sua terra saqueada e aprende a usar as ferramentas do mundo civilizado contra seus donos.

E enquando os zumbis – nós, aqui – tentam “achar seu lugar no mundo”, a luta de classes no mundo civilizado só se resolve na base do terrorismo.

Esse conteúdo todo politizado se mistura com armas de grosso calibre, lésbicas se beijando e muito sangue – tudo absolutamente gratuito. Nada mais divertido.

PS: Na refilmagem de Dawn of The Dead coloquei o bonequinho rindo. Grande erro… aquele bonequinho deveria estar pulando de alegria! Madrugada dos Mortos também é um filmão. Vejam os comentários do diretor no DVD!


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Compare Preços: Terra dos mortos, land of the dead