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Elefante

05.04.04 por Bruno Oliveira
Quando faz um filme, o diretor tem de decidir o quanto ele vai ser pessoal e quanto vai ser explicado ao público. Um dos extremos deste espectro é usado indiscriminadamente nas produções de Hollywood. Em Independence Day, um distraído espectador míope que está sentado na última fileira à esquerda entende o filme da mesma maneira que o mais atento dos críticos especializados. Não há mistério. O filme não é uma experiência pessoal pra ninguém. O outro extremo do espectro é o tipo de filme que os franceses gostam e Cannes premia – vide Dirigindo no Escuro. Filmes pessoais onde o tom é dado mas nada é explicado são difíceis de ser avaliados – cada um enxerga o que quer. Elefante é este tipo de filme.
Elefante: filme cabeça premiado em Cannes

Levado lentamente com Beethoven ou só ao som ambiente, o filme nos faz observar, como em um documentário, a história real de um dia na vida de alguns estudantes de uma escola em Portland. Com o ritmo lento, Gus Van Sant dá tempo de sobra para nos colocarmos no lugar dos adolescentes e pensar em como pode ser desagradável para qualquer jovem esclarecido o ambiente hospitalar, clean, e a vida do interior dos EUA. Parece que todo mundo é uma bomba relógio e o espectador tenta adivinhar quem vai explodir primeiro.No geral, os jovens atores não parecem de primeira linha, mas não comprometem – os que fazem os papéis mais delicados parecem talentosos. A fotografia é hábil quando alterna entre ambientes internos e externos na mesma tomada e quando transmite o visual limpo do colégio. O diretor de Elefante já fez todo tipo de filmes: bons, ruins e chinfrins. Desta vez ele acerta para quem gosta de filmes pessoais e erra para quem não gosta de filme que dê tempo para refletir. O bonequinho, humildemente, pensa sobre o assunto…

Num país onde a competição e o individualismo são levados ao extremo, surge uma cultura radical e conservadora que transforma os detalhes em essência e essência em detalhe. Um jovem numa idade de aprovação, que se sinta fora do páreo, pode querer mostrar seu valor arrancando respeito à força. Some isso a uma liberdade absurda para comprar armas fabricadas com o único propósito de fazer uma chacina e você tem um… Elefante.

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