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Tropa de Elite

29.08.07 por Bruno Oliveira
Não raro o bonequinho escreve sobre um filme antes de ele ir para as salas de cinema brasileiras. Isso nunca tinha acontecido com um filme nacional porque o cinema brasileiro tem tão pouco apelo popular e é tão tecnologicamente atrasado que nunca foi capaz de ser decentemente pirateado.

Tropa de Elite é bom. Mas não é um “filme brasileiro bom”, como os críticos costumam avaliar. É um filmão, mesmo. Nível de Cidade de Deus do ponto de vista de roteiro e direção de atores e uma porrada muito, muito, maior no estômago.

Não dá para criticar o filme sob os aspectos mais técnicos porque ele foi copiado antes da finalização. Não vou falar de fotografia antes do tratamento final da imagem nem do som antes da mixagem – que está sendo feita lá fora. Vou me ater, então, aos outros aspectos.

Como os leitores com tendências mais filosóficas do Bonequinho bem sabem, um filme de ficção bem feito tem muito mais impacto do que um documentário sobre o mesmo assunto. Por algum motivo estranho nossos miolos se comovem mais com uma mentira envolvente com personagens com os quais conseguimos nos identificar do que com uma verdade crua mas distante exatamente por ser específica.

A história de Tropa de Elite, pela natureza generalista da ficção, é “todas as histórias juntas”. Picasso já disse: O artista fala a verdade contando mentiras. Esse é um grande exemplo disso. Se não houver uma ruptura muito grande, daqui a um ou dois anos a população toda vai enxergar a polícia da maneira que ela é mostrada neste filme. Para bem ou para mal.

Não quero avaliar a arte pelo seu valor social, mas as vezes essas coisas se confundem graças a genialidade do autor. Quem quer fazer panfleto costuma gerar arte ruim, mas às vezes a arte boa tem um papel social gigantesco. (Rousseau e a revolução francesa…). O filme nos dá uma esperança meio assustadora com heróis que assassinam, torturam, esculacham inocentes, mas resolvem os problemas.

A violência do Rio tem efeitos estranhos. Ninguém sensato é contra a democracia, mas as pessoas valorizam abertamente atitudes fascistóides quando o assunto é segurança pública. É exatamente este o ponto mais importante do filme: não dá pra acabar de vê-lo sem virar um fã do BOPE. A coragem altruísta, incorruptibilidade e atitude determinada da tropa de elite é exatamente o que a nossa cidade precisa. Ela contrasta com toda a dissimulação, hipocrisia, egoísmo e covardia dos oficiais que o sistema corrupto gerou.

Mas não podemos deixar de pensar: Precisamos mesmo de heróis assim? Esta é a única solução para voltar a acreditar no estado e na polícia? Estamos falando dos vícios da paz e das virtudes da guerra. Essa discussão é tão antiga quanto a disputa entre Esparta e Atenas e a Guerra do Peloponeso – e tão atual!

Capitão Nascimento deixa Jack Bauer no chinelo e o filme vai ser um sucesso de bilheteria não importa quantos DVDs piratas sejam vendidos na Uruguaiana.

Por último, um comentário sobre José Padilha que, em sua carta para o jornal O Globo, atacou os jornalistas e autoridades que confessaram tácitamente seu crime (ao menos moral) comentando um filme que ainda não havia sido lançado. A crítica foi também para a hipocrisia de quem, para fugir de problemas legais, disse que não viu o filme, mas “conhece quem viu” ou “ouviu falar”. O que será que Padilha dirá quando perguntarem sobre as verdades de seu filme? Ele não dirá que tudo é uma obra de ficção? Isso será menos hipócrita?

Interessante observar quanto o autor não tem noção da importância de sua obra. Padilha está pensando no copyright – tão mundano – sem perceber que seu nome deve entrar para a história do cinema nacional. Neste caso, dinheiro é conseqüência. Sua obra é tão importante que deveria se tornar obrigatória para todos os cidadãos que pagam IPTU na cidade do Rio de Janeiro. E para os moradores de favelas que não pagam também.

2 Comentários para “Tropa de Elite”

  1. william disse:

    Tecerelogios sobre o filme Tropa de Elite, e muito pouco frente ao universo que o filme representa. O filme aborda de maneira clara a realidade vivida pelo policias em sua unidades e quarteis, desfazendo assim a visão hipocrita que nos é passada. Todos os atores envolvidos no filme participam com atuações simples, porém mujito convincentes e realistas. show de bola o filme. excelente.

  2. Marcio Silveira disse:

    Caros leitores
    Vamos colocar de lado o tema sociológico ou hipocrita…a realidade que o filme representou bem o seu papel, cativou o publico de filmes de ação, os de documentarios e ainda receneeu criticas de sociologos que nem mesmo conhece a realidade do asfalto ou da boca de fumo, a narrativa foi bem escolhida e as senas bem montadas…Parabens a todos do filme!!! quase esqueci CAVEIRA!!!!

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